Feliz junho, queridos heróis, feliz mês do orgulho!

 

Como mera aliada, não há muito que eu possa dizer sobre a comunidade LGBTQ+ – não me cabe a mim. Posso é garantir que, aqui na Heróis sem capa, todas as cores são bem-vindas: todos têm espaço para ser os heróis que são, livre e abertamente! A vida tem muito mais piada quando todas as cores do arco-íris se juntam e são reconhecidas.

 

Porque junho é o mês que celebra a livre expressão de todos, ao nível do amor, não podia deixar de vos trazer um herói do mês que abrisse espaço para conversar sobre o direito que todos temos de amar quem amamos, longe de preconceitos e julgamentos.

 

Apresento-vos Nasimy, o herói do mês de junho. Inspirado em Ifti Nasim, um poeta paquistanês que marcou a sua existência ao, em 1994, escrever e publicar um livro de poesia em Urdu, “Narman” – o primeiro nessa língua a declarar direta e abertamente desejos homossexuais.

 

A publicação do livro foi agridoce: tanto foi recebida com grande crítica, indignação e renúncia, como também iniciou um movimento e inspirou outros poetas paquistaneses a escreverem livremente sobre o amor que sentiam por alguém que partilhava a mesma identidade de género que eles. Conta-se que o distribuidor que estava a ajudar Nasim a publicar os seus poemas, sabendo que o conteúdo do livro iria gerar controvérsia, não permitiu que ninguém lesse os poemas até que o livro estivesse completamente impresso e pronto para a distribuição. O editor, quando deu conta de que a poesia relatava temas relacionados com a homossexualidade, terá dito: “Tire esses livros profanos e sujos de ao pé de mim, ou queimá-los-ei!”. Por causar polémica, a obra não foi nem é vendida nos ciclos de mercado normais, mas sim em segredo, numa espécie de mercado clandestino.

 

Devido à honestidade da poesia de Nasim, um grupo de jovens poetas começou a referir-se a outras obras de do mesmo estilo como poesia “narmani” – life goals, aqui mesmo. Mas não foi apenas dentro da comunidade homossexual paquistanesa que se viu a mudança que a obra deste herói causou. Um senhor de 60 anos, também paquistanês, disse a Nasim que chorou rios ao ler o seu livro, aparentemente por, até então, nunca ter tido conhecimento do que era a homossexualidade. De ali em diante, tornou-se um verdadeiro aliado e simpatizante dos direitos dos homossexuais.

 

Ifti Nasim não teve uma infância fácil. Desde cedo que sabia que era diferente dos seus familiares e amigos. Desde cedo que soube que era homossexual, e tendo em conta que todos à sua volta desprezavam tudo o que não fosse a norma de um casal, viu o seu futuro acabar tragicamente: ou sozinho, ou prematuramente, acabando com a sua própria vida por não aguentar o escrutínio e o isolamento. Mudou-se para os Estados Unidos quando era um jovem adulto porque leu, uma vez, na revista Life, que era muito menos provável que um homem gay fosse perseguido e aprisionado lá do que no Paquistão. Fugiu sozinho, cansado e com medo de que, ao ficar, ter viver toda a sua vida em segredo. Disse ao seu pai, que o queria casar com uma mulher, que ia apenas visitar a América, mas nunca chegou a sair. Mais tarde, ajudou duas irmãs e um irmão a segui-lo. Baseou-se em Chicago e, lá, o seu charme e exuberância rapidamente se espalharam por todo o lado.

 

Para além de escrever poesia, o herói foi colunista, apresentador de rádio, e vendedor de carros de luxo. Angariou dinheiro para ajudar pequenas comunidades após tragédias, ajudou a montar uma marcha de paz após o 11 de setembro e enviou, com regularidade, dinheiro para os seus familiares no Paquistão. Foi o primeiro poeta de um país de Terceiro Mundo a ler no Harold Washington Library Center, em Chicago, e pelo seu trabalho poético recebeu o prémio Rabindranath Tagore do South Asian Families de Chicago. Foi presidente dao South Asian Performing Arts Council of America e co-fundou a Sangat, uma organização cujo objetivo é fornecer educação e apoio a jovens homossexuais provenientes de países do sul asiático, como a Índia e o Paquistão. Sobre a Sangat, deixo-vos uma citação de Nasim, que explica o porquê do nome da organização ser esse, e que achei maravilhosa:

 
 
 

“Sangat mean[s] togetherness. When somebody is playing sitar, and tabla is playing — it’s called Sangat, all the music fusion are called Sangat. If it’s together — it’s sangeet, sangeet sathi, friend. So I said why don’t we call it Sangat. “

 
 
 

Se repararam, apresentei-vos este herói do mês conjugando os verbos no passado. Acontece que Ifti Nasim faleceu, após um ataque cardíaco, em 2011. Tinha 64 anos. Digo-vos isto apenas para justificar o porquê de falar no passado e não no presente, pois a sua morte não o dignifica mais nem menos. Foi uma verdadeira estrela que nasceu no país errado, na altura errada – ou se calhar não, se calhar tudo tem mesmo a sua razão e era suposto ter nascido no Paquistão, para que pudesse depois cruzar o mundo e espalhar o seu contagiante brilho passasse por onde passasse.

 

Por inúmeras razões (acabam de as ler todas), Ifti Nasim foi um herói, e deixou um legado espetacular. A coragem e ousadia de Nasim enriqueceram o mundo e acho que é justo dizer que, quando o deixou, deixou-o bastante melhor.

 

Espero que tenham gostado de conhecer o Nasimy (aka o Ifti Nasim), e que tenha sido um nome que nunca tinham ouvido antes! Despeço-me com uma das minhas frases favoritas, para marcar aqui bem este junho de 2021: LOVE IS LOVE. AMOR É AMOR.

 

Até breve, heróis!

 
 
 
 

Links úteis:

— The Chicago LGBT Hall of Fame: http://chicagolgbthalloffame.org/nasim-ifti/

— Paving the way for Cyber Queens, por Mustafa Saifuddin: https://www.saada.org/tides/article/paving-the-way-for-cyber-queens

— He didn’t want to fight, but Ifti Nasim could provoke, por Mary Schmich: https://www.chicagotribune.com/news/ct-xpm-2011-07-27-ct-met-schmich-0727-20110727-story.html

— Oral history interview with Ifti Nasim: https://www.saada.org/item/20200309-6038

Post navigation